O Código Divino da Vida

quarta-feira, 17 de abril de 2013


"Até há pouco considerava-se que as características genéticas transmitidas de uma geração a outra eram imutáveis e inevitáveis. Mas estudos recentes feitos por cientistas têm mostrado que o ambiente e outros fatores externos mudam a maneira como os nossos genes funcionam. Os fatores físicos e químicos já são bem conhecidos. "A maneira como pensamos pode ativar nossos genes benéficos adormecidos e desativar os negativos. Nossos potenciais repousam latentes em nossos genes."
Dr. Murakami fala do “pensar genético”, que é viver cada dia plenamente com uma atitude positiva, evocando assim a felicidade, a alegria, a inspiração e gratidão.
Diante da complexidade do código genético, torna-se necessário admitir a existência de um poder maior no universo. O dr. Murakami chama esse poder “Algo Maior”. Ele acredita que toda a vida emana da mesma fonte – a grande origem. Todas as células têm uma forma semelhante. Portanto, a vida em qualquer forma – humana, animal, vegetal e até uma célula individual – merece ser tratada com respeito e dignidade."


       A proposta de Kazuo Murakami, autor de O Código Divino da Vida, é expor sua tese de que a maneira como pensamos pode ativar genes benéficos e desativar genes negativos. De acordo com ele, nossos potenciais repousam latentes em nossos genes.
       A ideia é muito interessante. Kazuo se propõe a explicar a lógica do pensamento positivo, que estamos cansados de saber que é verdadeira, de forma mais verossímil. Através de vários casos e relatos, ele tenta nos convencer de que a maneira que encaramos a vida e lidamos com os acontecimentos desta realmente podem ativar e desativar genes, sejam eles benéficos ou não.
       Infelizmente, acho que Murakami se distancia de seu objetivo ao longo do livro. Não que o livro seja ruim, muito longe disso. Ele expõe muito bem a sua teoria, possui bons argumentos e ilustra muito bem suas ideias. O problema aqui é que achei que ele falhou naquilo que eu mais esperava do livro: entender um pouco mais de como funciona o nosso código genético, e como fatores psicológicos conseguem realmente interferir em seu funcionamento.
       O entendimento do funcionamento do DNA é extramente complexo e, talvez por isso, as partes em que ele cita esse funcionamento em si sejam um pouco difíceis de entender pra quem não tem nenhum conhecimento prévio do assunto. Porém, são escassas essas partes durante a leitura. Na maior parte do tempo, Kazuo está relatando suas experiências de vida, sejam elas dentro de um laboratório de pesquisa, ou não.
       Durante a leitura, também temos uma aula de conhecimentos gerais. Aprendemos muito sobre o dia-a-dia de um professor acadêmico, talvez bem diferente do que a maioria das pessoas esperava. Kazuo tem muita paixão pelo que faz, e nos faz sentir um pouco dessa paixão também.
       Resumindo, o Código Divino da Vida é um bom livro. É inspirador, mas não espere encontrar uma explicação detalhada pro que ele tenta descrever. Está menos para um livro técnico e mais para um livro de auto-ajuda.

Entrelinhas

       Um trecho em particular me chamou muito a atenção. Ele resume muito bem tudo que o livro propõe, e eu partcularmente fiquei arrepiado ao lê-lo. Transcrevi o trecho abaixo, vale uma conferida: 
"Você já ouviu falar de um único pé de tomate que produzisse doze mil tomates? Plantas como essa foram expostas em 1985 na Feira de Ciências e Tecnologia da Universidade de Tsukuba. Naquela ocasião, muitos pensaram que os pés de tomate haviam sido produzidos com a utilização de biotecnologia, mas na verdade tinham sido gerados a partir de sementes de uma variedade comum que normalmente só produz vinte ou trinta tomates por pé. Se não foi biotecnologia, qual seria o segredo? (...) O agrônomo Shigeo Nozawa cogitou que a inerente capacidade de crescimento das plantas era inibida pelo fato de suas raízes crescerem dentro da terra, e decidiu cultivar suas plantas em água enriquecida com nutrientes, liberando as raizes de seu confinamento e permitindo que elas absorvessem livremente as dádivas da natureza. (...) Isso nos mostra que até mesmo os tomates tem um potencial muito além do que possamos imaginar. (...) O mesmo ocorre em relação aos seres humanos. Se removermos todos os obstáculos e criarmos um ambiente ideal, nosso potencial de tornará ilimitado. Se os tomateiros podem aumentar sua produção em mil vezes, então se torna plausível esperar que seres humanos, que possuem organismos muito mais complexos, possam desenvolver suas habilidades de maneira ainda mais incríveis."




Vingadores vs X-Men

sábado, 13 de abril de 2013

       Ao contrário da maioria das pessoas, eu não segui a lógica cronológica de me interessar por quadrinhos na infância e crescer com essa paixão. Até pouco tempo atrás, meu conhecimento do universo das HQs se resumia ao basicão que todo mundo conhece. Se há cinco anos atrás me perguntassem quem era o Homem-de-Ferro, não saberia responder. Mas aí veio a era de ouro dos quadrinhos no cinema, e tudo mudou. Vieram os filmes de Homem-Aranha, Homem-de-Ferro, dos X-Men, veio a nova trilogia do Batman. Os super-heróis vieram pra dominar de vez o mundo do entretenimento.
       Foi nesse momento que nasceu meu interesse por esse mundo totalmente novo pra mim até então. Se antes nunca tinha pego numa revista da DC ou da Marvel, fui às bancas pela primeira vez com esse propósito. Aproveitando a recente reformulação de todo o Universo da DC (empresa responsável por alguns dos mais famosos super-heróis que conhecemos, como Batman e Superman), e comecei a acompanhar mensalmente alguns de seus maiores títulos.
       No começo não foi uma experiência das mais fáceis. Personagens como Flash, Batman, Lanterna Verde e Superman existem há decadas, e no começo foi bem difícil me situar. Eu não sabia, mas muita coisa tinha acontecido com eles durante todo esse tempo. Mas depois de um começo meio lento, tudo ficou muito mais prazeroso. Você percebe que todas as peças se encaixam, e que você não precisa ter acompanhado os personagens ao longo de todos esse anos para curtir e entender suas histórias atuais. Claro que a ajuda do Google facilitou, e muito, em diversos momentos.
       Porém, apesar de todo esse meu interesse atual, eu nunca tinha chegado a ler um dos quadrinhos da Marvel, já que eles não tinham passado por nenhuma reformulação recente, e a maioria se encontrava em edições avançadas. Eis que, por acaso, vi o anúncio na internet de que a Panini Comics ia lançar a edição nacional de Vingadores vs X-Men.
       A expectativa era alta, e a edição 0 foi lançada agora em março. Resolvi dar uma olhada, e devo admitir que valeu cada centavo investido (a revista sai à R$12,90). A história é sensacional. A trama é promissora, e é fácil de entender até para quem não está muito familiarizado com o universo da Marvel. Claro que no início algumas informações são importantes, mas como podem ver mais abaixo, resolvi dar uma facilitada pra quem tem preguiça de ficar pesquisando no Google.
       Bem, eu não sou muito conhecedor do universo dos quadrinhos, e nem um especialista, mas além de não ter tido nenhuma dificuldade pra entender a trama (se no início você ficar meio perdido, relaxe que a cada página tudo vai fazendo sentido), fiquei encantando com ela, e com o desenrolar da história. Vale a pena dar uma conferida, e pode ter certeza que estarei esperando ansioso pelo lançamento da edição 1.


Entrelinhas

       Em Vingadores vs X-Men aparecem muitos personagens já conhecidos do universo Marvel. Isso não impede quem não esteja familiarizado com eles de aproveitar a história, porém, dois temas complexos são de suma importância para o entendimento do arco principal. O primeiro deles é saber quem é a Feiticeira Escarlate.
       A Feiticeira Escarlate, cujo verdadeiro nome é Wanda Maximoff, é uma mutante, filha de Magneto. Inicialmente era uma vilã, fazendo parte de uma gangue com outros mutantes foras-da-lei, mas posteriormente se redimiu, e chegou inclusive a fazer parte dos Vingadores. É uma feiticeira, ou seja, seus poderes residem em sua capacidade de alterar a realidade, sendo por isso extremamente poderosa.
       Sua importância real em Vingadores vs X-Men reside em seu papel no que ficou conhecido como Dinastia M. Nessa minissérie, Wanda enlouquece em razão de sua mutação, e altera toda a realidade, criando uma Terra alternativa onde os mutantes são a maioria e os humanos uma minoria oprimida. Não vou
enrolar muito na descrição desse arco, mas o importante aqui é saber que ao final da história, Wanda traz de volta a "nossa" realidade, mas, ao proferir apenas três palavras, "chega de mutantes", reduz o número de mutantes de milhares para apenas 198.
       Agora me diz, porque esse massacre todo? Acontece que ao longo de mais de 10 anos de publicação dos X-Men, foram tantos personagens introduzidos que chegaram a existir mais mutantes que humanos normais. Se você realmente parar pra pensar, são MUITOS mutantes, e a Marvel começou a encarar isso como um problema. Assim, a Dinastia M foi a forma que a Marvel encontrou pra reduzir drasticamente a quantidade de mutantes em suas histórias. Como consequencia, os mutantes passaram a se considerar uma espécie em extinção, que luta pela sua própria sobrevivência. Essa temática de luta pela sobrevivência dos X-Men é essencial para o entendimento de Vingadores vs X-Men, principalmente porque eles acreditam que a esperança da raça mutante está nas mãos de Esperança, primeira mutante nascida após os eventos da Dinastia M.
       O outro tópico importante se trata da Força Fênix. Para quem não sabe, essa é ainda mais difícil de explicar. Mas basicamente é o seguinte: a Força Fênix é uma entidade cósmica imortal nascida do vácuo espacial, considerada uma das forças universais da vida. Tem um poder com potencial tão destrutivo que pode destruir por completo qualquer parte do universo.

Sunwing

quinta-feira, 28 de março de 2013

"Sombra, um jovem morcego da colônia dos Asas-de-Prata em busca do pai, descobre uma misteriosa construção humana. Ao entrar, Sombra e outros morcegos se deparam com uma vasta floresta artificial. Será possível seu pai estar ali? Lar de milhares de morcegos, a floresta artificial é tudo que eles sempre desejaram: temperatura agradável, comida de sobra, e total liberdade longe da tirania das mortais corujas. Mas Sombra e sua amiga Marina não estão tão certos que de isso é um paraíso. Sombra viu humanos entrarem na floresta e levarem centenas de morcegos adormecidos. E afinal, onde está seu pai? Acompanhe Sombra e Marina em uma perigosa jornada rumo às distantes selvas do sul, aonde seu antigo inimigo, o morcego vampiro Godo, agora é rei. Em Sunwing, Sombra deverá fazer tudo o que estiver ao seu alcance para achar seu pai e impedir os planos de Godo."

       Apesar de Asa-de-Prata ser um bom livro e nos apresentar um universo totalmente novo, a história é previsível e simples demais. Porém, alguns dos maiores mistérios da trama não são revalados, o que tornava quase imprescindível uma continuação: Sunwing.
       Se Asa-de-Prata era simples e previsível, Sunwing muda totalmente o tom da história. Mais sério e maduro, menos inocente e totalmente imprevisível, Sunwing é a versão definitiva da aventura dos morcegos Sombra e Marina.
       Quase todos os pontos baixos de Asa-de-Prata são deixados de lado aqui. Há um desenvolvimento muito maior dos personagens e uma consequente maior identificação do leitor com os protagonistas. A personalidade de Sombra se torna mais verossímil e sua genialidade está sempre sendo questionada. Godo está mais perigoso que nunca, e a guerra com as corujas e o segredo por trás dos Humanos darão uma guinada surpreendente.
       Todos os mistérios vão sendo revelados aos poucos ao longo da história, o que não nos faz querer largar a leitura. Mas é no final que está o maior trunfo de Kenneth Oppel.
       Outro ponto positivo é a seriedade da história. Temas polêmicos como fanatismo religioso e a prepotência de nós seres humanos para com a natureza são abordadas de forma muito interessante. Além disso, as cenas de ação são muito bem descritas e não somos poupados de nenhum detalhe das ferozes batalhas. 
       Algo que eu não esperava era o tom mais fantasioso de Sunwing. Não que os morcegos humanizados de Asa-de-Prata fossem totalmente verossímeis, mas aqui a história aborda questões como a mitologia própria dos morcegos sendo algo real e tangível. Não sei se considero isso algo positivo, mas tudo fica muito bem estabelicido dentro do universo criado por Oppel.
       Infelizmente, Sunwing ainda não teve tradução para o português, portanto, quem quiser saber o fim das aventuras de Sombra e Marina terá de se aventurar, como eu, na versão em inglês. No começo é difícil, o que fez eu demorar mais do que o esperado para terminar o livro, mas depois de um tempo você se acostuma e a leitura flui muito melhor.
       Enfim, Sunwing é uma excelente continuação. Não só tapa todos os buracos deixados pelo primeiro livro, como é uma história que nos surpreende e prende do começo ao fim. Mais do que recomenado.


Entrelinhas

SPOILERS!

       Para quem não sabe, os experimentos feitos por humanos em morcegos e corujas em Sunwing realmente existiu.
        Desenvolvido pelos EUA na Segunda Guerra Mundial para ser utilizado contra Japão, o morcego bomba foi concebido pelo cirurgião dentista Lytle S. Adams, que apresentou-o à Casa Branca em janeiro de 1942, onde foi aprovado posteriormente pelo presidente Roosevelt.
       O "X-Ray Project", como posteriormente ficou conhecido,consistia em fixar pequenas bombas incendiárias de napalm (conjunto de líquidos inflamáveis à base de gasolina gelificada, utilizados como armamento militar) no abdômen de morcegos. Posteriormente, os morcegos seriam soltos pela noite em zonas industriais japonesas e, ao amanhecer, se refugiariam nos telhados e frestas das industrias e casas. Depois, graças a um temporizador, as bombas explodiriam incendiando o local.
       A ideia começou a perder forças com o avanço do Projeto Manhattan, que se mostrava mais promissor. Ainda assim, as bombas morcego conseguiram atear fogo a uma aldeia simulada japonesa (durante a Segunda Guerra, os EUA simulavam construções japonesas em território americano onde podiam testar armamentos eficientes nos seus esforços de guerra), um hangar do exército americano e um carro.

Superman Terra Um

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

      Superman (ou Super-Homem, se preferir) foi criado pela dupla de autores de quadrinhos Joe Shuster e Jerry Siegel. Nascido no fictício planeta Krypton, seu nome verdadeiro é Kal-El (que significaria Filho das Estrelas no idioma kryptoniano). Foi mandado à Terra por seu pai, Jor-El, um brilhante cientista, momentos antes do planeta explodir, ainda bebê. O foguete aterrissou na Terra na cidade de Smallville, onde foi descoberto pelo casal de fazendeiros Jonathan e Martha Kent, que adotoram o jovem kryptoniano. Conforme foi crescendo, ele descobriu que tinha habilidades diferentes dos humanos. Quando não está atuando com o tradicional uniforme azul e vemelho, vive como Clark Kent, repórter do Planeta Diário.
        Sua primeira aparição foi apresentada na revista Action Comics #1 em 1938, nos Estados Unidos. O personagem foi criado em meio a uma época em que a ética era duvidosa. Inúmeros problemas sociais e econômicos, e o mundo era tomado de assalto pela primeira vez por um super-herói - e eles nunca precisaram tanto deles. A ameaça de guerra na Europa e a crise econômica nos EUA deixavam todo mundo à espera de um salvador. De certa forma a mensagem messiânica por trás de um personagem aparentemente bobo como Superman era o que todos - sobretudo os jovens - queriam ter por perto, como aponta matéria da revista Super Interessante Edição Especial Desvendando os Super-Heróis.
       Superman é conhecido por ser o primeiro super-herói reconhecido universalmente. Com base nele, foi fácil para outras mentes criativas elaborarem variações sobre o mesmo tema e produzirem personagens igualmente cativantes como Batman, Homem-Aranha e Wolverine.
       Antes de continuar com minha publicação, devo admitir que nunca fui fã do Superman. Sempre achei ele um super-herói muito "apelão". Virtualmente invencível, acho que o personagem sempre foi superestimado, principalmente nos desenhos feitos para a televisão, onde ele praticamente não possui ponto fraco e está sempre um passo a frente de todo o mundo. Toda essa minha visão esterotipada, sim, esterotipada, pois nunca tinha aberto um gibi do Superman na vida, começou a mudar depois de assistir o primeiro trailer do novo filme do último sobrevivente de Krypton, "O Homem de Aço", com estréia prevista para julho desse ano. O filme parece querer focar no lado mais humano do personagem, buscando uma aproximação maior com os espectadores. Seguindo essa premissa, foi lançado no final do ano passado no Brasil Superman Terra Um.
        Ela é a primeira de uma linha de álbuns de luxo que tem como intenção reinventar mitos dos quadrinhos da DC Comics: os principais personagens da editora, relançados com novas origens adaptadas aos tempos modernos. Então se ler na frente de uma revista Terra Um, esqueça amarras cronologias e vá de mente aberta. Terra Um será lançado apenas através de graphic novels, sem periodicidade definida, pensadas mais no mercado de livrarias do que nos leitores tradicionais de quadrinhos.
       Superman Terra Um trás uma visão mais contemporânea do mesmo conto, da origem do Superman, o jogando num mundo mais verossímil que os anteriores.
       Clark Kent num mundo mais real poderia ser qualquer coisa que ele quisesse ser: de jogador de futebol americano à cientista renomado em uma grande empresa. No entanto, o que ele procura para si é muito mais que ser o mais famoso de todos. É uma busca interna por um lugar só dele. Os valores impostos por seus pais adotivos e sua herança alienígena são discutidas de forma sóbria, ainda que no segundo ato tenha se tornado meio rápida. Aliás, o primeiro ato, com a apresentação do herói aos leitores, é muito bem elaborado. Pena que o mesmo não se possa dizer do segundo ato com a entrada do vilão meio sem graça e muito genérico. Mas o ponto alto da obra é a humanização do mito do Superman. Em Terra Um conseguimos, talvez pela primeira vez, entender de verdade Clark Kent. Nunca antes o personagem foi tão humano.
       Outro ponto alto dessa origem alternativa são as respostas para algumas questões que sempre ficaram no ar em relação à origem do personagem, incluindo o porque de ele usar um uniforme tão "extravagante" em azul e vermelho. É explicado inclusive porque ele não resolve tensões politicas pelo mundo ou de seu não envolvimento em conflitos mundiais. Fica bem claro que ele não é uma força política ou policial, muito menos militar. O roteirista Straczynski fez um belo trabalho levando essas questões de forma simples e decidida. Apesar de não ser cronológica, a Graphic Novel se mostrou com um ponto de partida plausível.
       De certa forma, Superman sempre foi criticado, inclusive por mim, por ser um herói puro demais, não se adequando ao nosso mundo. Hoje em dia todo mundo gosta de uns tons de cinza nos personagens, e esse é justamente o problema dele: Superman não tem esse lado ruim. Ele é a bondade encarnada, o que o torna pra muita gente chato. Mas ao ler novas abordagens do ícone dos quadrinhos, como essas de Superman Terra Um e Homem-de-Aço, começo a me perguntar se não é hora da gente também deixar um pouco de valorizar tanto as coisas erradas, e voltar um pouco pro lado bom. Superman abre mão de tudo, se entrega de corpo e alma em prol da humanidade, e, afinal, não é de pessoas assim de que tanto precisamos num mundo como o nosso?





O Que Não Mudou Depois da Rio+20

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

       Há mais de 6 meses aconteceu o maior evento já realizado pelas Nações Unidas, o Rio+20, que contou com a participação de chefes de estados de cento e noventa nações que propuseram mudanças, sobretudo, no modo como estão sendo usados os recursos naturais do planeta.
       Como estudante de engenharia ambiental, a realização do evento e suas consequencias deveriam ser de suma importância para mim. Cheguei inclusive a visitar a Cúpula das Nações, instalada no Aterro do Flamengo. Infelizmente, em função da já premeditada falta de resultados conclusivos, fiquei extramente chateado e decepcionado com o resultado efetivo da conferência e não me interessei como deveria pelo assunto na época.
       Agora, em pleno início de 2013, finalmente peguei pra ler um artigo sobre o tema, este em questão publicado pela Scientific American Brasil, Edição Especial Ambiente. Pude, pela primeira vez, compreender tudo que esteve por trás do megaevento, o porque de sua aparente inefetividade, e pra que ele realmente serviu.
       Os trechos a seguir foram retiradas do dito artigo, escrito pelo sociólogo Sérgio Abranches. Nada é mais esclarecedor que ler o texto na íntegra, mas para quem não tem acesso à revista, essas foram as partes mais explicativas e importantes na compreensão da atual situação da política sustentável global.

"Na primeira semana do encontro, 500 cientistas mergulharam em suas dúvidas, debates, controvérias num importante encontro (...) Entre essas dúvidas não está a de que o mundo passa por mudanças climáticas induzidas pela ação humana. Não há mais divisão entre cientistas que negam e afirmam a realidade da mudança climática.
Porque essa concordância entre os cientistas em pontos-chave não se transforma em documentos robustos? Porque a experiência com as negociações das convenções da biodiversidade e do clima já demonstrou que essas grandes assembleias, em que as decisões exigem uniminidade, não levam a decisões ambiciosas.  (...) Nelson Rodrigues, dizia que "toda unaminidade é burra". Mais que isso, ela exige que todos se contentem com o mínimo, quando o mais razoável é buscar o máximo. O mínimo é o mais insustentável dos propósitos, diante da dimensão do que ameaça a humanidade."


""A Rio+20 terminou hoje com um conjunto de resultados que, se realmente levados adiante nos próximos meses e anos, oferece a oportunidade para catalizar caminhos rumo a um século 21 mais sustentável."  Assim Achim Steiner, diretor executivo do programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) definiu a conclusão da Rio+20. Anotou que é uma promessa, não um resultado palpável. "Vamos em passos incrementais." O problema desse passo a passo das decisões globais é que a crise ambiental e climática avança em alta velocidade e aumentam os riscos efetivos de ruptura ecológicas, principalmente às associadas à mudança climática.
No mundo oficial , decidiu-se por um processo de negociações, sem garantias de que terá bons resultados. Ele tem prazo definido para chegar aos resultados inicados, mas o mandato aos negociadores é amplo e difuso demais. Não garante  que o produto final corresponderá às aspirações enunciadas nos discursos oficiais."

"Na Rio+20 não se conseguiu concenso sobre o mínimo necessário para começarmos essa caminhada rumo à sustentabilidade. Chegou-se ao compromisso possível. Mas não é assim que funciona com o clima e o ambiente. A natureza do desafio mudou. No século 20, o compromisso era possível, porque as questões eram políticas e de segurança militar. No século 21, as forças que nos ameaçam não admitem compromissos, nem atraso. Não se pode pedir que as mudanças climáticas recuem e deem novos prazos à humanidade. A Natureza é tema, mas não se senta à mesa de negociações."

"(...) A Rio+20 ocorreu em um momento de muita turbulência na economia globalizada, incerteza sobre as consequências da crise financeira, desdobramentos políticos em muitas partes do mundo e capacidade da comunidade internacional para lidar com esses conflitos. (...) não se pode permitir  que essas dificuldades se sobreponham ao enfrentamento dos perigos postos pelas ações humanas ambientalmente destrutivas.(...) embora algum progresso tenha sido feito no trato das questões ambientais globais, redução da pobreza e segurança alimentar, hídrica e humana, a escala dessas ações não foi comensurável com a escala dos problemas."

"Quando se examinam em seu conjunto as peças que compuseram esse megaevento, o que fica claro é que tiveram muito mais sucesso as iniciativas que implicavam ações voluntárias que aquelas que envolviam comprometimento político mais forte e que poderiam evoluir para compromissos de natureza mais compulsória."

"Formar concenso em uma assembléia desigual de nações em torno de compromissos que exigem mudanças no padrão econômico e energético e regulamentação do desempenho dos países é muito difícil. O máximo que se obtém é um raso mínimo denominador comum. Como a regra é a unaminidade, qualquer país tem poder de veto. Como cada país tem pelo menos uma área de interesses que considera inegociáveis, a probabilidade de que vetos cruzados eliminem a relevância de todas as decisões é enorme.
A diversidade é grande e os interesses começam a se diferenciar de forma muito mais acentuada com as mudanças globais. As áreas de conflito se ampliam mais rapidamente que as áreas de cooperação."


"Dada a sua magnitude essas reuniões chamam cada vez mais a atenção da mídia global, o que aumenta a visibilidade das questões de que tratam e facilita a mobilização da opinião pública. Essa mobilização é um ingrediente essencial para mudanças no âmbito dos países (...)"

Detona Ralph

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

       Enquanto a Pixar dava uma de Disney e criava a sua princesa em Valente, a Disney Animation foi dar uma de Pixar e fazer o seu próprio Toy Story. Porém, em vez dos brinquedos que ganham vida quando ninguém está olhando, Detona Ralph mostra o que os personagens dos videogames fazem depois do último game over do dia.
       O longa conta a história de Ralph, que tem sido por 30 anos o vilão do jogo Conserta Félix Jr., uma relíquia do fliperama. Porém, cansado de ser posto de lado por todos os outros que vangloriam apenas o herói que dá nome ao jogo e as suas muitas medalhas de ouro, Ralph resolve fugir da sua programação, e tentar a sorte nos demais jogos, para enfim conseguir a medalha que lhe dará um pouco do sonhado reconhecimento. Do mundo dos 8 bits onde ele ainda resistia bravamente, Ralph vai parar em um moderníssimo jogo de tiro em primeira pessoa de alta definição ambientado em um planeta alienígena cheio de insetos gigantes voadores. É claro que o resultado não podia ser outro: ele causa a maior confusão e coloca em risco todo o universo que existe por trás dos jogos daquele arcade. Nesse meio tempo, Ralph vai parar no jogo Sugar Rush, uma mistura de Mario Kart e Speed Racer com garotas pilotando carros de guloseimas, onde conhece Venellope, uma adorável pilota que por ter um bug, uma falha de programação, é discriminada e não pode participar das corridas. Unidos pelo sentimento de exclusão, Ralph e Venellope se tornam amigos, e agora, antes de conseguir voltar para casa, ele vai ter de ajudar a pequena corredora a vencer uma corrida.
       O filme começa de forma genial. A apresentação do divertido universo em que, fora do expediente, vilões se encontram no lar do fantasma de Pacman, e personagens de jogos ultrapassados são largados à mendicância na estação central é digna de um oscar.
       Principalmente durante o começo do filme são inúmeras as referências a diversos jogos, que testarão os conhecimentos gamísticos da platéia: desde a reunião de vilões na sala dos fantasmas de Pac-man (que conta com alguns dos mais famosos personagens da história dos videogames) até a tomada central que une todas as máquinas, haverá diversas tiradinhas fazendo referência a clássicos como Asteroids, Space Invaders, Pong, Street Fighter e muitos outros jogos. Os pequenos não devem se ligar muito, mas os mais viciados com certa idade, como eu, certamente irão à loucura. Algumas cenas, como aquela em que Kano aplica seu clássico fatality (sim, o do coração), ou a senha usada para abrir a sala de programação ser o clássico código da Konami dos anos 90 realizado em um controle do Nintendinho, estão ali apenas para a alegria dos gamers.
       Com um roteiro bem costurado, cada personagem, em vez de só inchar o elenco e disparar piadinhas específicas, tem diversas oportunidades de descobrir maneiras inusitadas de empregar os seus dons e crescer na narrativa.    
      O diretor ainda capricha ao conferir a cada jogo uma assinatura visual específica: em Conserta Félix Jr., os objetos de 8-bits têm contornos retangulares, os personagens movimentam-se quase em um stop-motion, que reproduzem a limitação técnica de antigamente, e os sons são bem característicos; já em Missão de Herói, a alta definição da Sargento Calhoun e a liberdade de movimento conferem o grau de realismo esperado do mais recente lançamento.
       Infelizmente, o filme perde um pouco do brilho no segundo ato, quando o mote passa a ser a amizade que Ralph constrói com Vanellope. Apesar da premissa ser legal, o filme se torna um tanto quanto infantil, o que é até compreensível por ser um filme voltado para o público mais novo, e as referências ao mundo dos games passa a se resumir a algumas citações
       Apesar desse deslize, o longa volta a brilhar a partir do começo do último ato. Apresentando uma conclusão sensível e doce, capaz até de provocar discretas lágrimas, e ação na medida, Detona Ralph nos ensina a aceitar o nosso papel na sociedade, sela ele qual for, e desempenhá-lo com prazer e da melhor maneira possível, mesmo que isso não nos renda os fogos de artifício esperados.
       Achei que o brilho do final foi que nenhum dos personagens magicamente deixaram de ser quem eram antes para ter um lindo final feliz. Cada um deles aprendeu a viver com o melhor que têm. Acima da média para um final de filme infantil.
       Enfim, Detona Ralph abre o ano de animações com alto nível de qualidade.A ideia é genial, e se, bem explorada, pode gerar ótimas sequencias.
       Apesar de tudo, se você nunca pegou num videogame na vida e já não é mais criança é melhor ser cauteloso quanto a esse filme. Mas isso não importa. Esse não é o meu caso.



Entrelinhas

       Paperman, o curta-metragem exibido antes do início do filme, é lindo.
       Ah, e não se esqueçam que Detona Ralph é um filme infantil, e, portanto, a sala estará repleta de crianças. Se já faz um tempo desde a última vez que você foi ao cinema com uma, já vá sabendo que no início pode ser extremamente irritante. Elas não param de falar, e em alguns momentos do filme, principalmente no começo, é difícil escutar o que os personagens estão falando. Além disso, você pode ter a "sorte" de, como eu, sentar do lado de uma criança que faz o favor de comentar cada cena do filme. Eu me senti um velho.      Mas relaxe e curta o filme. Um dia nós fomos crianças também.
 

As Aventuras de Pi

domingo, 6 de janeiro de 2013

       Quando li a sinopse de As Aventuras de Pi pela primeira vez, quase que descartei por completo a possibilidade de ver o filme nos cinemas. Não me interessei pela trama. Não gosto de filmes sobre sobreviventes de acidentes trágicos, que narram sua luta diária para sobreviver. Porém, depois de assistir o trailer, percebi que o filme é mais do que uma história de sobrevivência, e sim, uma história de superação, e porque não, de fé.
       Outro clichê que quase que me desinteressou de assistir o filme: seu alto teor religioso. Inicialmente, achei que a história ia focar no poder milagroso de superação da fé, que faria com que o protagonista superasse a tudo e a todos. Na prática, sabemos que não é bem assim. Porém, ao término do filme, percebi que a importância da fé não é acreditar em um Deus, ou em vários deles, mas, sim, em acreditar em algo, acreditar em si mesmo, e na nossa capacidade de superação. E essa força, essa vontade, vem de nós mesmos. As Aventuras de Pi não é um filme sobre um náufrago em uma situação inusitada e seu salvamento quase mágico. É sim uma história sobre como enfrentar adversidades. Sobre como enxergar o melhor lado de uma situação potencialmente traumática e transformadora. É sobre como se transformar para não se deixar ser transformado em sua essência. Sempre existe mais de uma maneira para enxergar algo, e cabe a cada um encontrar a melhor.  

       Pi Patel é um garoto indiano que vive com sua família em um zoológico. Como os negócios não vão bem, seu pai resolve embarcar com a família e seus animais para iniciar vida nova no Canadá. Para isso terão que enfrentar uma viagem de navio que não acaba nada bem. Único sobrevivente do desastre, Pi terá que dividir o espaço no bote com uma hiena, uma zebra ferida, um orangotango e um tigre de bengala chamado Richard Parker. As escolhas que terá que fazer e as atitudes que terá que tomar para sobreviver podem transformar Pi e tudo em que ele acredita.
       As Aventuras de Pi começa um tanto quanto devagar. Ele leva certo tempo para começar, passando um período enorme em explicações e conversas. Mas essa suposta lentidão inicial se mostra extremamente necessária para construir o personagem e nos fazer compreender o seu comportamento diante dos acontecimentos posteriores.
       A trama muda totalmente de rumo quando Pi sobrevive ao trágico acidente. A partir desse momento, alguns podem pensar que o rumo do filme é tomado pela questão da vida ou morte do protagonista. Ledo engano. O rumo das aventuras é tomado por surpresas, estas ilustradas ainda mais pela tecnologia 3D muitíssimo bem utilizada. Com surpresas, sustos e uma bela combinação, imagens espetaculares são lançadas aos olhos do público.
       O belo uso do 3D cria o que faltava para nos sentirmos imersos na solidão do personagem em alto-mar. O mar infinto, que, inúmeras vezes, se confunde com céu, é de uma beleza ímpar. Mas o que ele tem de belo, tem de assustador. Acho que mais que medo, o mar nos inspira respeito. Como o filme fez questão de mostrar, somos muito pequenos diante de toda a sua vastidão e poder.
       Como se tudo isso não bastasse, ainda temos um tigre recriado digitalmente que beira a perfeição, tornando difícil a tarefa de distinguir muitas das tomadas onde o animal real foi usado e onde o dublê digital assumiu a cena.
       Visual, emocional e espiritual são unidos de forma grandiosa, tratando das micro e macro visões da vida, constantemente fundidas, formando paradoxos infinitos, nos quais o um é o todo e o todo é um. Impossível não se sentir parte do universo de Pi.
        Mesmo com todos esse aspectos citados, o ponto principal da história, e que mais mexe com o espectador, é a relação entre Pi e o tigre. Richard Park passa de uma simples besta feroz para um companheiro de viagem não só do jovem Pi, mas de todos nós. A relação, que envolve respeito, medo e companheirismo, não para de evoluir e é difícil imaginar como ela vai acabar. A despedida dói no espectador.
       Um ponto que deve ser citado é que, apesar do tempo encurtado de exposição não permitir que sinta-se pena pelos outros animais náufragos, gradativamente devorados por Richard Parker, acho que isso leva o filme a não ser indicado para crianças muito pequenas, que podem não suportar a primeira parte do filme.
       Infelizmente, o final me pareceu simplista demais em comparação ao que eu esperava. 
       Como diz o famoso ditado. “Quem conta um conto, aumenta um ponto”. Às vezes, contos são narrados de tal maneira que viram fantasias. Tudo, porém, baseado em um fato. O final do filme nos faz a pergunta: o que será verdadeiro na ficção? Ou ainda: pode a ficção ser verdadeira? Cabe a nós a resposta a essa pergunta.


 

 Entrelinhas

       Pra quem não sabe, As Aventuras de Pi foi baseado no livro homônimo do canadense Yann Martel. O que pouca gente sabe é que o livro é acusado de ter plagiado a história de outro livro: Max e Os Felinos, do brasileiro Moacyr Scliar.
       O livro de Scliar se tratava de um judeu refugiado a caminho do Brasil, que no barco salva-vidas tinha que conviver com um jaguar.
       Para minha surpresa, parece que Martel chegou a admitir que leu a sinopse de Max e Os Felinos e se inspirou diretamente nela para criar a sua história.
       O brasileiro ficou sabendo disso e, no entanto, recusou-se a processar o outro, achando que era difícil e trabalhoso demais.
       Martel passou a colocar nas edições posteriores do seu livro uma referencia logo na primeira página, dizendo que realmente se inspirou em Scliar, o que, cá entre nós, já deveria ter feito antes.
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